Fintechs vs Bancos Tradicionais: A Verdade Sobre Quem Realmente Serve a Economia Popular Brasileira
Pyr Marcondes
Editor Chairman • Macuco GROUP • 50+ anos em jornalismo
Resposta Direta
Os bancos tradicionais brasileiros não perderam a economia popular — eles a abandonaram. Durante duas décadas, Itaú, Bradesco e Santander trataram clientes de baixa renda como custo operacional, não como mercado. As fintechs não ‘disruptaram’ nada — ocuparam um vazio que os incumbêntes criaram deliberadamente. A questão agora não é se os tradicionais vão reconquistar esse público. É se as fintechs vão repetir os mesmos erros quando a pressão por lucro apertar.
Vamos começar pelo fato que nenhum relatório de banco de investimento vai dizer com essa clareza: os bancos tradicionais brasileiros não foram ‘disruptados’ pelas fintechs. Eles abandonaram a economia popular. Deliberadamente. Durante duas décadas. E agora fingem surpresa quando Nubank, PicPay (PicPay S.A.) e Mercado Pago ocupam o espaço que eles mesmos deixaram vazio.
A narrativa de “disrupção” é confortável para todo mundo: os bancos tradicionais podem se posicionar como vítimas de inovação tecnológica, e as fintechs podem se posicionar como heróis democráticos. A realidade é mais crua: houve um mercado de 100+ milhões de pessoas que os incumbêntes consideraram caro demais para servir, e os entrantes perceberam que tecnologia tornava esse mercado lucrativo. Não é revolução — é arbitragem de ineficiência.
Quem é a economia popular no Brasil de 2026?
Quando falamos em "economia popular brasileira", o recorte engloba pelo menos quatro grupos:
Trabalhadores informais urbanos — autônomos, prestadores de serviço, vendedores de rua, motoristas de aplicativo. Cerca de 39 milhões de pessoas, segundo dados do IBGE.
MEIs e microempresas — formalizados com faturamento até R$ 81 mil/ano (MEI) ou pequenos negócios em fase inicial. Cerca de 16 milhões de MEIs ativos.
Beneficiários de programas sociais — Bolsa Família, BPC, Auxílio Brasil, Seguro-Desemprego. Mais de 20 milhões de famílias.
Trabalhadores formais de baixa e média-baixa renda — quem ganha de 1 a 3 salários mínimos com carteira assinada.
Juntos, esses grupos representam mais da metade da população adulta brasileira em uso ativo do sistema financeiro digital. É o mercado mais relevante do país em volume — e o mais sensível em qualidade de atendimento.
Como cada tipo de instituição se posiciona?
Caixa Econômica Federal — A porta de entrada via benefício.
A Caixa, via Caixa Tem, é o ponto de contato financeiro de praticamente todos os beneficiários de programas sociais. Não compete em experiência ou rendimento — compete por monopólio operacional dos pagamentos do governo. Cerca de 76 milhões de contas Caixa Tem em uso (estimativa). Pontos fortes: cobertura nacional, integração obrigatória com benefícios. Pontos fracos: app frequentemente instável, atendimento difícil, oferta de produtos adjacentes limitada.
Fintechs digitais — Nubank, PicPay, Mercado Pago, Inter, C6.
Os bancos digitais privados capturaram, ao longo da década de 2020, a "preferência ativa" da economia popular para o uso cotidiano do dinheiro. Quando o brasileiro de classe C/D escolhe onde deixar o salário ou onde receber o Pix do bico, a escolha é cada vez mais frequente um digital — não a Caixa nem o banco tradicional.
Nubank: maior base, qualidade de atendimento, oferta de cartão e crédito.
PicPay: forte em pagamentos cotidianos, link de pagamento, crédito popular (FGTS, consignado).
Mercado Pago: forte em quem vende em marketplace ou recebe por link.
Inter: ecossistema completo, mas com complexidade que afasta usuário básico.
C6: mais voltado a alta renda emergente, presença menor na economia popular pura.
Bancos tradicionais — Itaú, Bradesco, Santander, BB.
A presença na economia popular caiu ao longo dos últimos 10 anos. Bancos tradicionais respondem ainda a:
Crédito imobiliário (Caixa lidera, BB e Itaú aparecem em volume).
Operações com vínculo empregatício formal (consignado público, conta-salário corporativa).
Atendimento de cliente histórico que não migrou.
Os bancos criaram suas marcas digitais (Iti do Itaú, Next do Bradesco) para tentar competir, mas sem o mesmo impacto que os "puros". Em 2026, a percepção de "banco que entende a vida do brasileiro popular" é predominantemente associada a fintechs, não a bancos tradicionais.
Cooperativas de crédito — Sicoob, Sicredi, Unicred.
Crescem em segmentos específicos (zona rural, profissionais liberais associados, pequenas cidades). Cobertura geográfica menor mas qualidade de atendimento alta. Em 2024, segundo o BC (dados de abril/2026), havia 20,8 milhões de relacionamentos com cooperativas de crédito no Brasil.
Bancos médios e fintechs de nicho — BMG, BS2, Will Bank, AgiBank.
Atendem nichos específicos (consignado público no caso do BMG, cartão fácil no Will Bank, crédito para aposentados no AgiBank). Têm relevância para perfis específicos mas não competem em escala com os grandes digitais.
O que a economia popular precisa — e quem entrega
Houve uma virada de poder na economia popular?
Há 10 anos, falar em "banco para classe C" significava agências cheias do Bradesco, Itaú, Banco do Brasil e Caixa, com filas, burocracia, e oferta limitada de produtos. Em 2026, o mesmo brasileiro de classe C abre conta no Nubank em 5 minutos pelo celular, recebe Pix sem custo, deixa o saldo rendendo, paga conta de luz no app, e eventualmente pega antecipação de FGTS via PicPay. Não passou pela porta de uma agência em 2 anos.
Essa mudança é, junto com Pix e Open Finance, a transformação financeira mais significativa da história recente do país. E mudou o equilíbrio competitivo. As fintechs não capturaram só "clientes" — capturaram a relação primária com a economia popular brasileira. Bancos tradicionais ainda têm volume e crédito relevante para classes A/B, mas perderam o cotidiano.
Onde os bancos tradicionais ainda têm vantagem?
Não é tudo perdido para os tradicionais. Em algumas frentes específicas, eles ainda lideram:
Crédito imobiliário. Caixa lidera por mandato público, BB e Itaú vêm em volume. Fintechs ainda não competem aqui.
Consignado público (servidores). O BMG e BB lideram em consignado de servidor público; fintechs entram tarde.
Operações empresariais grandes. Para PJ acima de R$ 50 milhões de faturamento, bancos tradicionais e BTG dominam.
Atendimento físico em emergência. Em raras situações em que agência presencial faz diferença, banco tradicional está lá. Fintechs não.
Por que isso importa para o futuro?
A questão estratégica para 2026–2030 é se os bancos tradicionais conseguem reconquistar parte da relação cotidiana com a economia popular, ou se a perda é definitiva. Os caminhos possíveis:
Aquisição de fintechs. Caro, mas rápido. BTG comprou parte de Pan, outros movimentos são possíveis.
Marcas digitais robustas. Itaú apostou no Iti, Bradesco no Next. Resultados mistos.
Coexistência com perda de margem. Manter cliente para crédito imobiliário e investimento, abrir mão do cotidiano. É o caminho mais provável.
Para a economia popular brasileira, o cenário é positivo: mais opções, mais transparência, mais barganha. Mas exige educação financeira ativa do consumidor — porque a abundância de oferta também é abundância de oportunidades de erro.
Perguntas frequentes
Bancos digitais já são maioria entre brasileiros de baixa renda?
Em uso ativo cotidiano, provavelmente sim — embora dado consolidado seja difícil. O que se sabe: 113 milhões de brasileiros têm conta no Nubank, 42,7 milhões no PicPay, 25 milhões no Inter. Sobreposições existem, mas a base ativa em digitais supera a de bancos tradicionais "puros" em PF.
Caixa Tem vai continuar relevante?
Sim, enquanto for o canal obrigatório de programas sociais. Sua relevância é regulatório-funcional, não competitiva.
Bancos tradicionais conseguem reverter a tendência?
Possível, mas difícil sem aquisição de fintech ou investimento massivo em marca digital. A janela está se fechando.
Cooperativas de crédito são alternativa boa para a economia popular?
Em regiões onde estão presentes (zona rural, cidades pequenas, segmentos profissionais específicos), sim. Cobertura geográfica é o limite — não estão em todos os lugares onde o digital já está.
Fontes e Referências
- ●Banco Central do Brasil
- ●Balanços das empresas (Nubank, PicPay, Inter)
- ●Relatório de Cidadania Financeira 2025 (última edição disponível em maio/2026)
Pyr Marcondes
Editor Chairman — Macuco GROUP
Jornalista com mais de 50 anos de experiência em mídia, comunicação e tecnologia. Fundador do Macuco Group. Cada artigo do Radar Fintech passa por checklist editorial rigoroso de verificação de fontes e aprovação final.
Conselho Editorial
Dr. Ricardo Assumpção
Economista, ex-Banco Central
Consultor em regulação financeira e política monetária
Dra. Camila Fonseca
Advogada Financeira, OAB/SP
Especialista em direito do consumidor financeiro e fintechs
Prof. Marcos Silveira
Gerontologista, USP
Pesquisador em inclusão digital da terceira idade



